Questões femininas e a Síndrome da Mulher Maravilha

Ana Carolina Paulini Marturano

3/20/20263 min read

a man riding a skateboard down the side of a ramp
a man riding a skateboard down the side of a ramp

Mês de março e não tem como não abordarmos sobre as questões femininas. Uma delas, recorrente, tem sido sobre o quanto as mulheres vêm se queixando de exaustão, cobranças e autocobranças. Refere-se ao sentimento - mesmo que este não seja plenamente consciente - do quanto a mulher tem que dar conta dos seus diversos papéis: o de mulher, mãe, filha, esposa, amiga, dona de casa, profissional; somados as outras esferas, as quais incluem apresentar uma rotina saudável, incluindo alimentação, atividade física, dormir bem, cuidados com a aparência, momentos de lazer e com a família, por exemplo.

O acúmulo de papéis e funções acontece para todos. Socialmente, representamos diversos papéis, no entanto, estes parecem terem pesos diferentes para as pessoas, pois a mulher sente-se na obrigação de fazê-los perfeitamente, de modo que não demonstrem suas vulnerabilidades. É sabido que, ao longo dos séculos, homens e mulheres têm obrigações e tratamentos diferentes.

Lages et. al. (2005) apud Oliveira (2024) discorre que isso acontece porque ao se falar do trabalho da mulher fora de casa, muitos elementos se fazem presentes: emancipação feminina, filhos, cônjuge, renda familiar, sentimentos de culpa pela ausência no lar. Tal fato acontece porque a mulher continua sendo socialmente considerada como elo da família, e, como tal, se espera que ela desenvolva esse papel , mas que também produza, isto é, tenha seu trabalho profissional, sendo protetora e mantenedora social do lar.

Em 1984, Schaevitz criou a Síndrome da Supermulher. Não se trata de um termo patológico ou referência a uma doença específica, mas a um fenômeno psicossocial. Na época, observava-se as mulheres ocupando o mercado de trabalho, mas ainda mantinham as responsabilidades domésticas integralmente. A síndrome descreve o esforço exaustivo das mulheres que tentam alcançar a perfeição em todos os papéis (carreira, maternidade, relacionamentos, vida pessoal e social), sem admitir cansaço e/ou pedir ajuda.

Ainda hoje, essa segue sendo a realidade de algumas mulheres. Os principais sintomas descritos pela síndrome são: sentimento de culpa por não ser o suficiente em alguma área; dificuldade em dizer não; negligência com a própria saúde e autocuidados, em prol dos outros; necessidade de manter o controle de tudo. Cabe ressaltar que estes critérios não fecham diagnóstico.

Aqui no Brasil, conhecemos como a Síndrome da Mulher Maravilha, em alusão à heroína criada por William Moulton Marston e desenhada por Harry G. Peter em 1941, conhecida por suas habilidades e símbolo de empoderamento feminino e justiça. A personagem, criada por um psicólogo, visava desafiar as questões de gênero e ser um modelo para as meninas, uma vez que só existia heróis masculinos.

A história da Mulher Maravilha faz referência à mitologia grega. Nascida dentre as amazonas, seus poderes estão diretamente ligados aos dons presentes dos deuses: força, sabedoria, coragem, velocidade, beleza e um coração amoroso. Muitas de suas histórias exploram temas clássicos de heroísmo e sacrifício, comuns na mitologia. Ela é frequentemente colocada em situações onde deve fazer escolhas difíceis, sacrificar seu bem-estar pelo bem maior e enfrentar desafios que testam sua coragem e moralidade. Além disso, sua missão é promover a paz e a justiça.

A síndrome acabou popularmente ganhando o nome da personagem diante de todas as qualidades e capacidades que a heroína apresenta, apesar de ser símbolo de feminismo e empoderamento. Assim como a personagem, o sofrimento destas mulheres se dá pelo conflito entre a noção de heroísmo e sacrifício, visto que se veem frente ao sentimento de dar conta de tudo ou deixar de fazer algo por si em prol do outro, por exemplo.

Um dos trabalhos em psicoterapia é refletir sobre estas autocobranças e/ou os demais cenários de sentimento de culpa, ansiedade e sobrecarga, que também acarretam sofrimento psíquico e psicossomático. A partir disso, é possível lidar com estes conflitos e colocar em prática estas reflexões para melhor qualidade de vida.

*A ideia do texto, em nenhum momento, foi uma forma de repúdio à personagem-heroína.

palavras-chave: mulher, questões femininas, saúde mental da mulher

Referências:

LAGES et. al. in OLIVEIRA, Liliane Barbosa Mesquita de. Síndrome da mulher maravilha: uma análise interseccional sobre os impactos na vida das mulheres brasileiras negras, 2024. Disponível em https://www.encontro2024.rj.anpuh.org/resources/anais/15/anpuh-rjerh2024/1721255378_ARQUIVO_b8ad7327ca237234ebf6f22273329caf.pdf. Acesso em 20 de março de 2026.

MITOS E LENDAS. A mulher maravilha: símbolo de força e empoderamento. Disponível em https://www.mitoselendas.com.br/2024/07/a-mulher-maravilha-simbolo-de-forca-e.html. Acesso em 21 de março de 2026.

REFLETINDO UM MINUTINHO. Questões femininas e a Síndrome da Mulher Maravilha. Vídeo disponível em https://www.youtube.com/watch?v=c-WrPhSBaz8&t=7s.

SHAEVITZ, Marjorie Hansen. Síndrome da Supermulher, 1984.